11 abril, 2011

RISCOS OCULTOS DE UM ATAQUE CARDÍACO

Riscos ocultos de um ataque cardíaco

Por Michelle Guimarães

Exames comuns não revelam fatores que deixam você mais vulnerável

A professora Lídia Duarte Ferrari, 50 anos, conversava relaxadamente com uma amiga ao telefone quando foi surpreendida pelo que, mais tarde, definiu como um "tapa nas costas". Sentiu uma insuportável pressão no peito seguida de sensação de enjôo. Desligou o telefone e percebeu que suava frio. Chorando, entrou no quarto do filho Marcus Vinicius. Marcus levou a mãe de carro para o hospital. No caminho, ela se queixava de forte pressão no peito e dormência no braço esquerdo. Eram 9h30 do dia 16 de junho de 2001.

Lidia nunca apresentou fatores de risco cardíaco – não fumava e não estava acima do peso. Apesar dos sintomas óbvios o rapaz se recusava a acreditar. Minha mãe sempre se cuidou tanto... Como pode sofrer um ataque do coração? Na UTI do Hospital São Luiz, em São Paulo (SP), Marcus soube que o diagnóstico era este mesmo: enfarte.

Depois de sofrer um cateterismo, Lidia submeteu-se a uma bateria de exames. Além de peso e de pressão arterial ideais, a professora tinha também o colesterol na faixa considerada saudável: 189, abaixo dos 200 que a Sociedade Brasileira de Cardiologia considera o limite desejável.

Mas o exame de sangue revelou níveis altos de Lp(a), uma partícula de gordura que pode aumentar os riscos de ataque cardíaco até mesmo quando as taxas de colesterol são boas. O nível normal de Lp(a) para brancos e orientais é 20; o de Lidia era 83.

É surpreendente, mas muitos indivíduos não podem pressupor que estejam seguros. No Estudo de Framingham, análise contínua realizada em cerca de 11 mil residentes de Framingham, nos EUA, 17% daqueles que apresentaram doença cardíaca precoce não exibiam os quatro grandes riscos controláveis: colesterol alto, hipertensão, diabetes ou tabagismo.

"Por isso é que a busca e fatores de risco ocultos é ainda mais importante para pessoas com histórico familiar", explica o Dr. Sérgio Sales Xavier, chefe do serviço de cardiologia do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)."Fique alerta para ataque cardíaco ou dores no peito em parentes do sexo feminino até os 55, incluindo avós e tias." Outros que podem se beneficiar são as pessoas que já apresentam um fator óbvio de risco, como colesterol alto, ou que tiveram algum mal cardíaco diagnosticado, mesmo que não possuam fator de risco conhecido.

Embora Lidia desconheça casos de doença cardíaca na família, os médicos acreditam que a Lp(a) elevada tenha origem no histórico familiar, pois essa partícula está associada à genética. Hoje Lidia toma medicamentos com os quais espera poder baixar em breve os níveis de Lp(a).

Eis aqui cinco fatores ocultos de risco de ataque cardíaco e o que você precisa saber a respeito deles:

Lp(a)

Até hoje, a substância presente no sangue responsabilizada pela maioria dos ataques cardíacos era o "mau" colesterol, o LDL. Mas os pesquisadores estão verificando que um dos membros da família do LDL, a Lp(a), é um fator de risco adicional.

Um estudo realizado com mulheres participantes da pesquisa de Framingham demonstrou que um alto nível de Lp(a) 9em geral de 35 a 40) mais do que dobrava o risco de um ataque cardíaco.

No Brasil, a Dra. Carmen Vinagre, do laboratório de Metabolismo de Lípides do Instituto do Coração (Incor) , fez um estudo com portadores de doença arterial coronariana precoce. Em 56% do grupo foi detectado um "excesso" de Lp(a). A pesquisa mostra que pacientes com níveis elevados de Lp(a) correm duas vezes mais risco de desenvolver doenças arteriais coronarianas.

O que parece tornar a Lp(a) tão perturbadora é o seu desenho único. O LDL comum é uma partícula rica em colesterol envolta por um fio de proteína. À medida que o LDL circula pela artéria, essa proteína pode prender-se às placas e liberar uma carga de colesterol. A Lp(a), porém, possui um fio de proteína a mais cuja estrutura é muito semelhante aos anticoagulantes naturais presentes no sangue. Por isso, ela confunde os receptores (as portas de entrada das células) e se liga a eles no lugar do anticoagulante. Os coágulos que não são quebrados podem levar à trombose. Além disso, a Lp(a) tem a propriedade de depositar colesterol na parede das artérias, causando obstruções. Tanto a trombose quanto as placas de colesterol nas artérias provocam enfarte.

Exames de sangue especiais podem identificar o problema, mas nem uma dieta de baixo teor de gordura nem a maioria dos medicamentos para redução das taxas de LDL são capazes de diminuir altos níveis de Lp(a). As duas exceções são doses monitorizadas de niacina – um tipo de vitamina B – e, para mulheres que já passaram da menopausa, o estrogênio.

Homocisteína

Esse aminoácido, encontrado no sangue, aparece em cerca de 10% a 15% dos ataques cardíacos e em 30% e 40% do número total tos acidentes vasculares cerebrais. Considera-se alta uma taxa de homocisteína acima de 14.

Na década de 60, em Boston, médicos americanos examinaram uma jovem portadora de uma doença genética que causava o acúmulo de homocisteína no sangue. Havia uma criança na família da jovem que morrera do doença similar aos 8 anos, no mesmo hospital, 30 anos antes. Quando o Dr. Kilmer McCully recuperou os registros antigos e analisou no microscópio os tecidos da criança morta constatou que o menino tinha as artérias de um ancião, obstruídas.

Muitos meses depois, a notícia da morte de um menino de 2 meses em conseqüência de outra doença genética que causava o acúmulo de homocisteína chamou a atenção de McCully. Ao analisar amostras do tecido do bebê, mais uma vez encontrou artérias obstruídas. "Comecei a suspeitar que pessoas com níveis altos de homocisteína corriam risco de sofrer um ataque cardíaco", recorda McCully.

A teoria do Dr. McCully causou controvérsia e levou a outras pesquisas. Três décadas mais tarde, um estudo realizado pelo Hospital de Mulheres de Harvard e Brigham avaliou cerca de 15 mil médicos do sexo masculino durante cinco anos. Desse grupo de indivíduos de hábitos saudáveis, apenas 271 sofreram ataques cardíacos. No entanto, 5% dos homens com as maiores taxas de homocisteína corriam um risco três vezes maior de sofrer um ataque.

No Brasil, um estudo semelhante foi realizado pelo Dr. José Rocha Faria Neto, cardiologista da unidade de aterosclerose do Incor e do Hospital do Coração. Após avaliar 326 pacientes (148 com problemas cardiovasculares e 88 saudáveis), o estudo constatou que 22% dos pacientes com doenças coronarianas tinham homocisteína elevada e apresentavam um risco 3,6 vezes maior de desenvolver problemas do coração. A pesquisa mostrou ainda que, quanto mais alto o nível de homocisteína, maior é a gravidade da doença coronariana.

Em alguns casos, as taxas elevadas de homocisteína podem ser facilmente corrigidas. Entretanto, ainda não há provas definitivas de que, uma vez reproduzidos todos os níveis, o risco de ataque cardíaco diminuirá. Uma alta taxa de homocisteína coincide com uma deficiência de ácido fólico – uma vitamina do complexo B – e, em alguns casos, das vitaminas B-6 e B-12. "Pessoas que consomem de quatro a seis porções diárias ricas em grãos, verduras e frutas cítricas ou sucos ingerem os cem microgramas de ácido fólico recomendados", explica o Dr. José Egídio Paulo de Oliveira, professor de endocrinologia e nutrologia da UFRJ.

Mas os médicos estimam que pelo menos 30% da população não consuma mais de cem microgramas de ácido fólico. "Quando a deficiência de ácido fólico é muito alta, recomendo aos meus pacientes o uso de suplementos", diz o Dr. Oscar Dutra, diretor clínico do Instituto de Cardiologia do Rio Grande do Sul.

Fibrinogênio

Essa substância, uma proteína que auxilia a formação de coágulos no sangue, entrou em evidência a partir de 1986, quando pesquisadores ingleses mediram durante cinco anos, os níveis de fibrinogênio no sangue de operários de uma fábrica de processamento de alimentos. Os cientistas descobriram que os homens do grupo com nível de fibrinogênio no terço superior corriam um risco e doença cardíaca 84% mais alto que os indivíduos encontrados no terço inferior. Desde então, outros estudos vem comprovando essa evidência.

A cardiologista-chefe da unidade de pós-angioplastia da Clínica São Vicente, no Rio de Janeiro, Dra. Lílian Carestiato avaliou o nível de fibrinogêno de 119 pacientes, divididos em três grupos: pessoas com doença coronariana aguda, doença coronariana crônica e saudáveis. A prevalência de níveis de fibrinogênio acima do recomendável (400 mg/dl) foi 23,9% maior no grupo com insuficiência coronária aguda.

Embora altos níveis de fibrinogênio estejam ligados ao risco de ataque cardíaco, a ciência ainda não demonstrou haver uma relação de causa e efeito entre os dois. No entanto, uma das teorias existentes é de que quanto mais alto o nível de fibrinogênio maiores serão os coágulos que se formam após o rompimento de uma placa aterosclerótica.

Uma defesa de primeira linha contra o excesso de fibrinogênio é declarar guerra às substâncias que danificam as artérias. Mas é possível também lutar contra o próprio fibrinogênio. "Parar de fumar é uma das principais medidas", diz a Dra. Lílian. "Controlar o peso e a pressão sangüínea, além de fazer exercícios, também pode baixar esses níveis."

Depósitos de cálcio

O cálcio se acumula nos bloqueios arteriais formados pelo colesterol e outras substâncias. Um dia , o Dr. Bruce Brundage, cardiologista da Bend Memorial Clinic de Oregon, nos Estados Unidos, teve uma idéia enquanto estudava um novo tipo e tomografia computadorizada, capaz de tirar raios x do coração entre os batimentos. "Percebi que a coronariotomografia ultra-rápida poderia capturar imagens mais nítidas do cálcio", conta Brundage. "Se houvesse excesso de cálcio nas artérias do paciente, este seria mais propenso a ter obstruções perigosas."

No Brasil, a coronariotomografia ultra-rápida vem sendo utilizada, clinicamente, há cerca de dois anos. O Dr. Romeu Meneghelo, coordenador do setor de cardiologia não invasiva do Hospital Albert Einstein - único local na América Latina onde o exame está disponível – explica qual tomografia é capaz de detectar problemas aos primeiros indícios de aterosclerose, mesmo antes de o paciente apresentar os sintomas. O exame também pode motivar as pessoas a reduzir os fatores de risco.

Como no caso de Maria Helena Afonso dos Santos, Assistente de enfermagem que, aos 49 anos, decidiu começar a freqüentar uma academia de ginástica. Por controlar os níveis de colesterol, triglicerídeos e açúcar no sangue, Maria Helena se considerava sadia. Entretanto, um teste ergométrico detectou alteração dos batimentos cardíacos. Ela foi encaminhada ao Dr. Meneghelo, que solicitou uma coronariotomografia ultra-rápida.

"Tudo que tive que fazer foi deitar em uma mesa por 30 minutos", conta Maria Helena. "Mas, quando recebi o exame, pensei que eles tivessem me entregado os resultados de outra pessoa por engano."

Maria Helena tinha um nível de cálcio de 50 – quando o normal para mulheres na sua faixa etária seria zero. O cateterismo revelou uma obstrução de 90% na coronária esquerda. Ela se submeteu a uma cirurgia de revascularização e teve de fazer uma ponte mamária e três de safena. Hoje está bem com a ajuda de medicamentos.

Proteína C-reativa (PCR)

Muitas vezes, quadros cardíacos são precedidos por um estado inflamatório. Os médicos podem obter informações sobre esse estado pedindo uma leitura a mais no exame de sangue de rotina: a medição do nível da proteína C-reativa pelo método ultra-sensível. O exame não é caro e ajuda o médico a identificar, nos pacientes com nível alto da substância, um risco cerca de três vezes maior de desenvolver doença cardiovascular aguda. Qualquer número acima de 0,16 mg/dl é sinal de perigo.

O objetivo é detectar alterações discretas nas paredes arteriais causadas por uma inflamação – sinal de que pode haver problemas iminentes nas artéria coronárias. A inflamação contribui para o rompimento dos depósitos de gordura e, por conseguinte, a formação dos coágulos que entopem as artérias e causam quadros coronários agudos. "No entanto, os pacientes não apresentam sintomas", diz o Dr. Raul Santos, vice-presidente do setor de aterosclerose da Sociedade Brasileira de Cardiologia.

O exame demonstra ser um poderoso prognóstico de expectativa de vida e pode colaborar tanto para a identificação dos indivíduos assintomáticos com risco de doença cardiovascular como para o acompanhamento de pacientes que já a tenham apresentado. Diversos estudos desenvolvidos na Europa e nos Estados Unidos mostram que aqueles com níveis de PCR superiores a 0,16 mg/dl estavam três vezes mais propensos a apresentar episódios cardiovasculares que indivíduos com índices mais baixos.

No Brasil, a unidade clínica de displidemias do Incor está fazendo um estudo para relacionar o aumento da substância a uma predisposição maior a doenças coronarianas. A pesquisa pretende provar que a redução da PCR consegue reverter a inflamação das artérias. Com essa confirmação, os médicos poderão prescrever medicamentos utilizados no combate ao colesterol – eficazes na reversão da inflamação e na recuperação das paredes arteriais.

O que esperar do futuro? Vem aí o exame genético. "Uma vez descobertos os genes que desencadeiam as doenças cardíacas, será possível detectar a predisposição desde o nascimento", diz a Dra. Maria da Consolação Moreira, pesquisadora brasileira da INTERHEART – estudo da organização Mundial de Saúde sobre os novos fatores de risco, desenvolvido por mais de 500 centros de pesquisa em 54 países. Segundo ela, a pesquisa será concluída provavelmente em 2002.

Será que você deve se submeter a exames para detecção de qualquer um desses fatores ocultos de ataque cardíaco? Embora já estejam disponíveis no Brasil, esses exames podem ser dispendiosos. "Os pacientes devem conversar sobre o assunto com seus médicos, depois de descartados os riscos convencionais", aconselha o Dr. Raul Santos.


(Para maiores informações, peça a seu médico que entre em contato com uma cetro médico que possua um departamento de cardiologia de alto risco ou preventiva. Ou então visite o site da Sociedade Brasileira de Cardiologia em www.cardiol.br .

Fonte: Revista Seleções - Readers Digest, Sociedade Brasileira de Cardiologia

1 Comments:

At 8:36 PM, Blogger Mirna said...

As pessoas têm de fazer check-ups médicos a cada ano. Especialmente quando uma pessoa é grande. Não precisa ser velho para ter risco cardíaco. O mesmo deve ser feito quando uma articulação dói. Há excelentes centros de radiologia no Rio de Janeiro

 

Postar um comentário

<< Home